Mendigos, malabaristas, transeuntes e outras criaturas de Curitiba – Parte 1.

Há pouco tempo em Curitiba, as noites claras e o clima fresco são um convite para caminhar madrugada adentro pelas ruas da cidade. O trajeto quase sempre é o mesmo, mas os personagens e o sabor de cada conversa tem sido cada vez mais instigante.

Com exceção dos moradores de ruas, viciados e alguns poucos transeuntes que normalmente não são curitibanos, a maioria das pessoas parecem se sentir um pouco incomodas ao serem abordadas por um estranho na rua. Normalmente agem como se eu não estivesse ali ou como se minha presença lhes causasse algum incomodo e seguem apressando o passo. Tive mais sucesso em minhas conversas com mendigos, meninos de rua e algumas outras pessoas que vieram para a capital trabalhar ou estudar.

Outro dia tive uma breve conversa com um menino de rua, destes que faz malabarismo no sinal. No primeiro dia em que eu o encontrei não pudemos conversar muito, pois apesar da hora já avançada, quase 2h AM, ele ainda estava “trabalhando”. Trata-se de jovem de 16 anos, embora, a julgar pela sua aparência, eu lhe daria uns 10 ou 12 anos amais.

Entre um sinal verde e outro conseguimos conversar um pouco e eu consegui saber um algo sobre como ele chegara até ali. Neste diálogo muitas coisas me chocaram e uma delas foi saber que ele já estava na rua desde os 10 anos de idade. A cada pergunta o sabor da conversa se tornava mais amargo, até por que suas respostas me deixavam desarmado de tal forma que única coisa que eu conseguia fazer era elaborar uma nova pergunta.

Eu quis saber o motivo que o levara a sair de casa e ele prontamente me respondeu: “ - Por que eu briguei com meu pai.”. Então quis saber o motivo da briga, afinal deveria ser algo realmente muito sério, não conseguia imaginar algo que justificasse um garoto de 10 anos de idade saindo de casa para ir morar na rua. “ - Ele batia na minha mãe”. Procurei desviar a conversa a fim de saber como ele vivia, como comia, onde dormia, quanto ganhava e como fazia para vencer as noites frias do inverno de Curitiba. Fique assustado quando ele me revelou quanto ganhava no semáforo. Segundo ele em dias ruins ele consegue arrecadar sozinho cerca de R$ 70,00. Em dias menos ruis chega a obter até R$ 90,00. Você parou pra fazer a conta? R$ 70,00 X 30 dias = R$ 2.100,00. Nada mal, não acha? Logo indaguei: “ - Cara, por que você não aluga um apartamento?”. Ele apenas sorriu. Perguntei como ele gastava o dinheiro e ele disse que usava para se alimentar e também para comprar pedra. Perguntei há quanto tempo fumava, ele me disse que desde os 9 anos. Bom, até aqui já sabemos que dinheiro pra comida não lhe faltava, o banho era tomado no chafariz, o colchão era a calçada, acho que depois de entorpecido pela droga a dureza do chão pouca diferença lhe fazia. E quanto ao frio? Bom ele simplesmente disse que era frio mesmo e sorriu.

Encontrei com este jovem outras vezes, acho até acabamos ficando amigos. No próximo post eu revelo o teor de nossa outra conversa e também como foi o meu diálogo com o Senhor Edeval Silva, um mendigo ou morador de rua que há 15 anos habita as calçadas e bancos de praças de Curitiba.

9 comments ↓

#1 Maurivan Luiz - Webstandards - i’dont care about your browser » Experiência perfeita: Viva a realidade, não fantasie histórias. on 03.25.07 at 10:48 pm

[...] como funciona melhor a madrugada curitibana, após tal feito resolveu escrever o post “Mendigos, malabaristas, transeuntes e outras criaturas de CuritibaMendigos, malabaristas, transeunte…“, no qual retrata o primeiro dia pela madrugada curitibana e conta a história de um jovem [...]

#2 Maurivan Luiz on 03.25.07 at 10:50 pm

Parabéns Rodrigo por sua atitude!
Muitas pessoas apenas vivem de imaginação de como será uma simples madrugada em Curitiba, mas nunca saem para “tirar isto a limpo”, gostei muito de sua atitude.

Muito bom saber de que você além de conversar, não teve se quer preconceito contra o garoto (infelizmente em nossa sociedade isto vem ocorrendo com frequência), irei acompanhar por aqui para em brever saber como foi sua experiência com o Edeval (:

Abraços, e sucesso!

#3 Ricardo (aka. DeBuG) on 03.25.07 at 10:56 pm

Cara, gostei da sua atitude. Muito interessante.. hoje em dia são raras as pessoas que se importam com quem não tem onde morar. Parabéns mesmo. Abraços.

#4 wander lima on 04.27.07 at 5:16 pm

legal cara!

#5 Lucianna Magalhães on 05.11.07 at 5:40 pm

Olá Rodrigo,

Como estou fazendo uma pesquisa sobre mendigos, acabei encontrando o endereço do seu site. Gostaria de obter essa sua entrevista com esse Mendigo, Sr. Edeval. Se puderes mandá-la para o meu e-mail, serei grata.

Parabéns pelo blog.

#6 Karoline Almeida on 05.14.07 at 10:58 am

Ola Rodrigo…

Meu nome é Karoline, estou estudando a antropologia da cidade em minha pós graduação, e estou realizando uma pesquisa sobre meninos de rua malabaristas, que nem sei se podem ser chamados de meninos de ruas com um salário destes!!!Gostaria de saber se vc tem mais informações sobre este assunto…

Obrigada
Karol

#7 francisco mendes de gois junior on 06.03.07 at 10:46 pm

e ai meu irmão acabei lendo e fiquei admirado com sua atitude,em tratar a realidade de nossas cidades em especial a noite curitibana e seus contrastes,diferentes daqueles que vemos diretos na tv em relação a curitiba, pena que muitos nem percebem essa realidade de nossos jovens e adultos nessecitados que vivem sobre a sombra da madrugada muitas vezes frias tentando sobriviver como pode,e não são visto por causa de nossas cegueiras preconcetuosas em relaçao aos plobremas sociais,valeu pela sua atitude e vou esperar pelo seu proximo texto pra ver que aconteceu,um abraço até +………

#8 Suênia Souza on 11.14.07 at 12:00 pm

Primeiramente quero parabeniza-lo. Realmente poucas pessoas tem a simplicidade de sentar ao lado de um mendigo para conversar, parecem que esquecem que eles também são seres humanos.
Acabei de ler isso por acaso, vim no google pesquisar algo sobre mendigos, pois já tive a oportunidade de conversar com eles mas foi rápido demais, não conversei o suficiente para escrever um conto legal, que toque as pessoas. Já escrevi vários sobre mendigos, mas releio e acabo rasgando todos, pois ainda não consegui chegar onde eu quero.Quando não fica melancolico demais, fica muito seco.
Parabens Rodrigo, atitude louvavel a sua e me ajudou muito.

#9 Rodrigo Barros on 09.23.08 at 4:26 pm

Legal Rodrigo! Bem interessante o relato!Sou artista de rua de Belém do Pará, minhas intervenções são todas com técnicas circenses, e trabalho com apresentaçoes em sinais, praças e eventos, além de campanhas de marketing entre outras. estou me formando em artes visuais e meu trabalho de conclusão de curso é sobre intervenções circenses nos sinais da grande Belém. Fazendo relação direta entre a prática e a teoria. Sendo assim acabo falçando das divesasas relações existentes neste espaço, e uma delas é a relação com estes meninos. Você quando o encontrou, achou de cara que ele era um malabarista, um artista ou coisa parecida? Vc acha que as pessoas pagavam pela sua apresentação ou mais por caridade, isso é muito importante? Pois nosso grupo em Belém é profissional, vivemos desta atividade ( apresentações no sinal ), com um trabalho elaborado de perna-de-pau, maquiagem e figurino, e não ganhamos tudo isso! Muito pelo contrario, frequentemente somos decriminados.Vou mandar um lick do orkut onde tem imagens do nosso trabalho!
No mais parabéns por suscitar esta discurssão!
Valeu!

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